A verdade é que me apeteceu. E depois de me apetecer, fiz. Sempre acompanhada da mesma questão, sempre com a mesma dúvida, sempre a perguntar-me porquê?, e logo uma coisa qualquer, por detrás da cortina transparente da janela, e porque não? Seria uma voz, ainda que não se ouvisse? Não. Era, muito provavelmente, só uma coisa qualquer que não sabia o que dizia. Ainda assim, segui-a. Se é para ficar, para alimentá-lo todos os dias na tentativa de crer que algo válido, se é para o encher com reflexões que valham a pena, ainda não decidi. A verdade é que me apeteceu e fiz. Não sei porquê, nem porque não, mas curiosamente esse facto não é inquietante e, arrisco confessar, confere-me até uma sórdida liberdade. Veremos...
Por dulce surgy

Tu

Apetece-me que subas as escadas naquele vagar de quem sabe que o mundo não se esgota.
Apetece-me a tua mão a tocar ao de leve na madeira da porta e logo eu a abri-la, o sorriso a convidar-te.
E os teus olhos cá dentro da pele, os órgãos que se iluminam, qualquer coisa que aquece.
Apetece-me sermos países vizinhos, profundamente soberanos; só as nossas fronteiras que se tocam, só uns rios em comum que nos atravessam.

?

O que é a inspiração?
Não falo de levar ar aos pulmões,
ou talvez seja isso mesmo...

Que melhor imagem do que esta; aquilo que possibilita a vida?

Dissertação botânica

São como folhas, as gentes.

Pendem-se em aglomerados mais ou menos
extensos, admitindo posições hierárquicas
calhadas em sorte pelo lado do tronco em que nascem.
Embora pareça, não migram, são quase estáticas, tirando,
talvez, alguma agitação provocada
pelos ventos vespertinos e por chuvas outonais.
A maior parte serve de alimento a animais famintos,
outras há, porém, que são abrigo, albergue de vida,
bálsamos multicolores.

São como folhas, as gentes.

Umas amarelecem e caiem, esquecidas,
sob o solo que as absorve. Contudo, algumas,
poucas, são perenes. Ficam,
ainda que no rigoroso inverno nevado.
Ficam, pintando de verde as longas
tardes cinzentas melancólicas.
Ficam, ficam.
Anos, longos anos, inventando, para nós,
um renovado conceito temporal.

Fé

Crer no que não vemos, não,
mas sim,
criar o que não vemos.

Agora

No processo em que as coisas se renovam, por vezes, braços e dedos ávidos, fluidos como água, engolem o corpo. Puxam para trás, recuam-nos. Fazem-nos, não sei porquê, voltar, como se tivéssemos esquecido qualquer coisa ao sair de casa, uma luz acesa, um fio de água numa torneira, mas não, regressamos e tudo afinal igual. Pergunto-me porque voltamos atrás e não há resposta, tudo na mesma, e contudo uma perna a querer fechar a porta e a outra do lado de cá a inventar uma torradeira que se deixou ligada, a alinhar uma almofada fora de sítio, e nisto anos e anos perdidos, sem qualquer significado, todas as coisas desses anos apagadas e nós, pasmados, Aqui outra vez?.
No entanto, há dias, momentos, segundos, em que o renascimento não dói. Já não dedos esquálidos a assustar no virar dos dias. Apenas mãos que se estendem, que confortam, que nos mostram, sem que pedíssemos, o caminho. Coisas e coisas que se movem devagar, vozes que nos chamam baixinho. E nós, tacteando no vazio e ainda assim confiantes, avançamos.

Golijov, a testemunha


Também eu quero, apesar das explosões, cantar.
Também eu espero, depois da queda, um levantar.

Para sempre

Transportava a vida toda no regaço e tropecei numa ribeira de águas revoltas que me arrastaram e conforme me arrastaram a vida espalhada pelo chão, coisas soltas rebolando e eu, de joelhos numa aflição a tentar juntá-las num monte para as guardar, não nos bolsos desta vez, num baú de sótão, daqueles que resistem aos anos e ao esquecimento. Por isso, eu agora sentada no chão mirando despojos, a inquietar ao acaso o entulho, isto guardo, isto não guardo, a compor a arca das melhores relíquias, a fazer da minha lembrança uma coisa boa. Retiro do chão, do meio desses cacos avulsos, o embalo da brisa do mar, um abraço forte, a tua mão entrelaçada na minha. E é isso que guardo. Tu um dia a encontrares tal velharia, a revirares de um lado e doutro, a murmurares sem que te lembres, que coisa esta, mas essas coisas lá, aguardando a tua volta, arrecadadas dentro de um baú velho e também dentro do meu coração.

Sputnik, meu amor

"No fundo não passávamos de dois solitários pedaços de metal, traçando cada um a sua órbita. Ao longe, parecem belos como estrelas cadentes, mas, na realidade, cada um de nós navega sozinho sem destino certo, prisioneiro na sua própria cápsula. Caso as órbitas desses dois satélites se cruzassem poderíamos então encontrar-nos. Talvez até abríssemos os nossos corações, mas apenas por um brevíssimo instante. No momento seguinte, voltaríamos a mergulhar na mais absoluta solidão. Até começarmos a arder e ficarmos reduzidos a nada."

Fascina-me conhecer todos os lados de uma dada questão




















Ainda que alguns deles pareçam absurdos...

Oh dôce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que fluctua
De engano em desengano!
Oh creação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E á dôr que nos opprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,
E tu, reflexo vago
D'um sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz orphã do dia!
Que mystica harmonia
Ha n'essa luz tão fria,
E a sombra que me guia
N'este areal deserto!

João de Deus, Melancolia
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