Não sei porquê

A verdade é que me apeteceu. E depois de me apetecer, fiz. Sempre acompanhada da mesma questão, sempre com a mesma dúvida, sempre a perguntar-me porquê?, e logo uma coisa qualquer, por detrás da cortina transparente da janela, e porque não? Seria uma voz, ainda que não se ouvisse? Não. Era, muito provavelmente, só uma coisa qualquer que não sabia o que dizia. Ainda assim, segui-a. Se é para ficar, para alimentá-lo todos os dias na tentativa de crer que algo válido, se é para o encher com reflexões que valham a pena, ainda não decidi. A verdade é que me apeteceu e fiz. Não sei porquê, nem porque não, mas curiosamente esse facto não é inquietante e, arrisco confessar, confere-me até uma sórdida liberdade. Veremos...
Por dulce surgy

Desmeço

Que pequenez sente quem sente a pele a esvair,
quem vê em liquido ficar o corpo.

Deste local rente salta
o gigante topo do mínimo.

Hoje

Agora já não pesa.
O céu baixou até mim umas nuvens,
que me acolheram à porta do novo dia.
A água tocou-me a pele. Gelou-me.
Mas agora já não pesa.
Nas ruas desertas e nebulosas
deste Domingo de Novembro,
acordei livre e leve.

As mutações da memória

Estranha esta viagem que se faz a sós,

não a sós,

eu, e a meu lado outra eu, de folhos nas mangas a olhar-me incrédula,

Sou isto?

enquanto nas janelas do carro passam as mesmas ruas que em tudo diferentes;

no lugar das casas rasteiras, prédios

parques infantis em vez das pedras soltas a descer até ao riacho,

que agora escondido por baixo de um viaduto.

Paro na esquina desta viela, onde o teu cheiro se adensa numa mistura de pão

acabado de sair do forno e erva molhada pelo orvalho da madrugada,

e logo aqui em frente,

quase inteira, quase igual,

a casa.

Só uns vidros partidos, só uma porta que desanda desabituada do abrir

e uns bocadinhos de parede a ceder ao cansaço.

A fonte onde caçávamos peixinhos vermelhos com redes de dedos,

agora só pedaços de pedra ao acaso pelas ervas altas do jardim.

E ao subir o degrau, parece-me que tudo tão pequeno que quase me cabe no bolso,

como cabiam os rebuçados de fruta que me davas com um sorriso.

O louceiro, que antes enorme e brilhante,

a depelar tirinhas douradas de tinta velha,

com os vidrinhos embaciados do tempo

e nos cantinhos do espelho pendurado na sala,

umas nódoas oxidadas, de velhice,

como as tuas.


Tudo a encolher, tal como tu encolheste

já que eras capaz

de feixes de lenha, cabazes de peixe, tarros de barro pesadíssimos

e os teus braços capazes

de tardes inteiras à soleira da porta,

a entrelaçar enxovais para netos que nunca casaram.

Depois,

aos poucos,

foste ficando só um carvalho deitado por terra de raízes soltas no ar.

Umas carnes, umas peles,

poucas carnes,

mais veias de plástico arranjadas à pressa, remendos.

Tu a quereres voltar atrás, onde eu nos teus braços,

poucos dias, poucos meses, do tamanho certo para agarrar.

Eu sorrisos, velas de bolo, sarampo, varicela, sempre mais velas,

eu enfeites de natal, eu férias de Verão, tão rápidas essas velas que

de repente

eu mulher e os teus braços como sapatos que deixaram de servir.

E agora tu capaz de nada,

tão pequena que nos baixamos para te beijar.

Tu a caberes toda numa caixa tão bonita de enfeites dourados,

que não depelam ainda,

tão quieta que nem o peito se move,

deitada e muda como aquela outra eu

que se esconde entre as silvas desgovernadas do jardim.


Todos os anos o sol de Agosto eras tu.

Madrugadas passadas a revolver o leite cá dentro, na traseira do Datsun,

o dia a dormir e os pássaros calados ainda

Não queremos apanhar o calor, pois não?

o sorriso do pai, a convencer o sonambulismo.

E, esquisito, à primeira nesga de luz, um mundo diferente

verde e verde a estender-se,

ovelhas, cabras, milho,

sotaques arrastados,

a tua casa lá ao fundo e as tuas mãos em mim a recordarem-me os traços

Que crescida.

O que eu gostava do cheiro a lã das mantas velhas, avó.

O que eu gostava do chiar da madeira do chão

e do doce de tomate que fazias, avó.

Na cozinha, rodeava as tuas pernas como os gatos,

mergulhava a ponta pequena do dedo nos beirais arrefecidos dos tachos,

e o doce um travo a canela escondendo um longínquo sopro a limão.

Lá fora, ruídos estranhos de bichos novos;

grilos, cigarras, passaritos, risos, miúdos renascidos

descalços na terra, descalços nas águas límpidas do rio.

E há tanto tempo essa imagem esquecida,

que em outro dia apostava que mentira,

apostava que eu nunca isso, eu nunca livre

e nunca as tuas mãos entrelaçadas nas minhas

a protegerem-me de tudo o que fugia.


E depois cresci,

cuido eu que cresci,

uma vez que ainda os folhos nas mangas,

as joanhinhas amarelas nos elásticos do cabelo,

a saia rodada a deixar ver os joelhos marcados das quedas.

E à medida que fito mais de perto esse fantasma,

afinal uma coisa que parece brilho no olhar,

uma fé escusada em coisa nenhuma.

E quando cresci, o Agosto a transformar a tua aldeia

em Barcelona, em Paris,

em pirâmides africanas com cinco mil anos,

museus e museus e história universal,

eu a afastar-me de ti, isto é, a esquecer-me

demorada em relacionamentos confusos com pretensões de liberdade,

gentes de vento a desequilibrarem-me, escolhas, tormentas, coisas vãs,

e não mais as tardes calmas a prolongarem-se

nem os risos desacautelados da felicidade.

Não mais a paz que me trazias.

Todo este tempo a precisar de algo sem que o soubesse,

a naufragar numa corrente de ponteiros apressados,

umas lágrimas constantes a dissolverem o passado, a mudarem o que foi,

a sussurrarem-me ao ouvido assuntos sem importância

enquanto apagavam os outros,

a amontoarem destroços e sobressaltos

em camadas sucessivas dentro de mim.


Sabes,

Todas estas coisas que carrego são como aquela chuva pequena,

apenas alfinetes miúdos a picar a pele,

de início quase sem se dar por eles, e quando a gente distraída,

a unirem-se em carreiras de água escorrendo pelo cabelo e pela roupa.

Percorro, nem sei porquê,

a casa marcada dos gatos que a invadiram na tua ausência,

sacudindo tapetes a renovar as cores às florinhas baças do pó,

amontoando loiças gastas em caixotes,

e estas coisas sem sentido, objectos só, mais nada,

coisas que existiam pelas tuas mãos, e estas agora mirradas, desaparecidas quase,

entre rendas brancas e cera de velas.

Por isso,

na minha lembrança,

imagens que se refazem, fotografias soltas em que a tua cara menos rugas,

ainda os teus olhos abertos, vivos,

ainda tu a carregares-me no colo,

eu a segurar-me a ti, ao que eras, ao teu amor,

na minha lembrança,

coisas que se alteram, umas que se apagam ao ritmo do nascer das outras,

e aqui dentro de mim

a certeza de querer ser

aquela outra eu,

saltando descalça entre as pedras do rio.

Inauguração no Braço de Prata - dia 5 / 11 às 19:30 h

AS MUTAÇÕES DA MEMÓRIA

FOTOGRAFIA DE NICA PAIXÃO E TEXTO DE DULCE SURGY

O projecto “As mutações da memória” nasceu da necessidade de explorar o conceito da característica multi-real da imagem.
Na verdade, já muito se disse sobre a multiplicidade de leituras praticáveis a partir da mesma fotografia; tantas quantos os que a vêem. Contudo, o nosso contributo no vincar desta perspectiva, pretende alargar-se do texto como suporte literário da imagem para a construção duma narrativa independente, uma das mil visões possíveis, a partir de uma série fotográfica, que não é, ela mesma, mais do que um conto sem palavras.
Tornou-se paradoxal este querer ir mais além na procura da ligação texto/fotografia, uma vez que ao dar à escritora, apenas a partir do tema da série conceptual e da sua visualização,a possibilidade de criar uma história totalmente livre da influência da fotógrafa, nascem dois espaços que, embora se enriqueçam na presença um do outro, são autónomos e valem por si só.
No fundo, não se tenciona que cada imagem seja compreendida pelo texto ou vice-versa, mas antes, deixar o espaço aberto para o nascimento de novas narrativas a partir do trabalho fotográfico, e mesmo, imaginar novas imagens no decorrer da leitura.
O tema central desta narrativa prende-se com a dualidade percepção individual/realidade.
As memórias que cada um traz da sua infância, vão sendo reconstruídas, mutadas à medida do passar dos anos e do adensar de experiências. Os nossos primeiros anos reinventam-se sob novas perspectivas, deixando de ser aquilo que na verdade foram, passando a percepções próprias e particulares.

Desejo

Ai,
Como queria ser um poema de Pessoa
Em que tudo é naturalmente
belo
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaasem esforço
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacaído do fundo da alma
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacomo uma folha solta no Outono
aaaaaaaaaaaaaaasem que se dê por isso,
aaaaaaaaaaaaaaatão natural é o seu estado maturo
aaaaaaaaaaaaaaaque nada espanta que se solte do tronco
aaaaaaaaaaaaaaae flutue vagarosamente até ao toque.

Mas olha-me
Vês
aaaaa imperfeição das vírgulas?
aaaaos ângulos rectos?
aaaaos conflitos?

Olha-me
Que vês?

Um puzzle inacabado, sem todas as letras.

aaaaQueria ser um poema de Pessoa como aquele que li hoje
aaaasimples,
aaaabelo,
aaaaperfeito,
aaaasimples,
aaaasimples.

Mas
Olha-me
Vês?


Tentativa
aaaaaaaaaErro
Tentativa
aaaaaaaaaErro

aaaaaaaaaaaaaaSuposição

aaaaaaaaaaaaaaApenas suposição

De súbito

O mais dentro em mim,
aquele bocado onde se esconde a verdade,
descobri-o há pouco. Semanas ou seria há minutos? Segundos.

Ia assim desacautelada, pontapeando despreocupadamente
uma pedrinha na calçada, assobiando baixinho acordes improvisados, e nisto
um murmúrio a fazer-se ouvir
devagar de início
ao longe
vago
como uma nascente cristalina perdida numa selva densa. E era isso mesmo,
um fio de água
discreto
dissipado entre rochedos e vegetação, a correr calmamente,
um fiozinho miúdo mas constante
a elevar-se só um pouquinho no ar antes de transbordar o meu chão.

Com os pés descalços, inundei-me dele,
desse mais dentro de mim,
desse bocado onde sou eu de verdade.

E é só aqui que quero ficar.

Duas artes

A literatura e a fotografia tocam pontos comuns.
Ambas são narrativas. Ambas tentam condensar
num espaço limitado aquela parte da realidade
que nos é importante.

Em inúmeros autores podemos observar
exemplos da junção dessas duas formas de expressão,
em que, nuns mais que outros, o texto acontece
lado a lado com a fotografia, um apoiando o outro.

O que gostei nesta imagem, mas eu sou suspeita,
é a necessidade da utilização das palavras
para a concepção da própria fotografia.
Na verdade, esta apoia-se na expressão escrita
para ser, para existir.



E é claro que eu fico feliz com isso...





Foto de : Carlos Muralhas

Tu

Apetece-me que subas as escadas naquele vagar de quem sabe que o mundo não se esgota.
Apetece-me a tua mão a tocar ao de leve na madeira da porta e logo eu a abri-la, o sorriso a convidar-te.
E os teus olhos cá dentro da pele, os órgãos que se iluminam, qualquer coisa que aquece.
Apetece-me sermos países vizinhos, profundamente soberanos; só as nossas fronteiras que se tocam, só uns rios em comum que nos atravessam.

Coisas boas


Foto de:carlos muralhas

?

O que é a inspiração?
Não falo de levar ar aos pulmões,
ou talvez seja isso mesmo...

Que melhor imagem do que esta; aquilo que possibilita a vida?

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